16/03/2012

Poesia

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz.
Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas.
Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse.
E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lopes de Vega.
Às vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
(Cecília Meireles)

Sem saída

"Deus é amor sem segredo
Nos olhos do cachorro
E a todo animal que ele quis Que visse
Sua obra já pronta.
Morro de medo dos teus olhos Sem palavras
Bigorrilhos, duques e xerifes
Porque me viciei em sons Codificados
Porque eu sei que amar é Abanar o rabo
Lamber, latir e dar a pata."

E que assim seja

"Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal.
Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas...
E, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro."

Lou Andreas-Salomé.

Homem se ajoelhar

É bom. Sobretudo porque a mulher sabe que está sendo bom para ele: é depois de grandes jornadas e de grandes lutas que ele enfim compreende que precisa se ajoelhar diante da mulher.
E, depois, é bom porque a cabeça do homem fica perto dos joelhos da mulher e perto de suas mãos, no seu colo, que é sua parte mais quente.
E ela pode fazer seu melhor gesto: nas mãos, que ficam a um tempo frementes e firmes, pegar aquela cabeça cansada que é fruto entre seu e dela.
Lispector.

Hemorragia

Aqui é um lugar de honra.
E só chega aqui quem tem peito.
Quem grita por liberdade e tem coragem de se desfazer do mal.
Dói. Mas passa. E quando passa conclui-se que há a felicidade plena.
Mesmo com as cores esmaecidas que tornam tudo tão belo.

Guardo Volumes

Está tarde e os cachorros que antes latiam na rua agora se calam.
Há um silêncio dentro do quarto onde estou nesse momento.
Mas não é um silêncio qualquer. É um silêncio que me atordoa, que me faz lembrar que há na minha vida um enorme vazio e uma gigante falta de senso.
Pronto. Achei a palavra que talvez me defina: Insensatez. Não sou uma pessoa sensata, tampouco inteligente nas questões emocionais.
Creio que o meu carma agora seja o impulso. Sou cheia de impulsos. Eu mesma sou um impulso.
E justamente esse silêncio de agora destrói a minha alma. Por ser calmo, por não anunciar tempestade alguma, por fazer minha mente vagar pelo passado e pelo medo do futuro.
Por sempre trazer à tona fraquezas e medos. Por me lembrar sempre que sou fraca e estúpida.
Finalmente! Ouço vozes na rua e meu coração se acalma. Mas sei que o maldito silêncio retornará e fará de mim um monstro.

O Lustre

"Isso aqui é lindo.
É uma cidade suja e desordenada, como se o principal fosse o mar, as pessoas, as coisas.
As pessoas parecem morar provisoriamente.
E tudo aqui tem uma cor esmaecida, mas não como se tivesse um véu por cima: são as verdadeiras cores."